Há esperança sim!

– Seu sonho?
– Quero ser professor! Diz Emanuel.
– Eu quero muito ser aquela pessoa que ajuda as outras a viver melhor, como é mesmo o nome? Responde ansiosa, Maria José.
– Voluntária.
– Você sabe que voluntária não recebe dinheiro?
– Não. Tanto faz! Para mim, o melhor é ajudar, quando crescer, quero ser isso mesmo.
Esse diálogo entre crianças de 9 a 12 anos, moradores do distrito rural de São Bento, renovou minha esperança em acreditar que, através da Educação, podemos sonhar com dias melhores. A conversa aconteceu durante uma visita minha a Serra de São Bento, onde descobri belezas locais e me deparei com uma escola cheia de encanto e esperança. Uma escola montada pelo sonho de Emanuel, um garoto de 12 anos, franzino, olhos grandes, bastante simples e muito observador.
Conheci Emanuel Luiz de Lima através de sua tia, dona Marinês Estevam, uma pequena comerciante do local, que confia, não só no tino comercial do menino, mas também já o admira pelo interesse que demonstra quando o assunto é educação. Os moradores dos sítios próximos estimulam seus filhos a frequentarem a escola de Emanuel e dão o apoio quando eles precisam, tão grande o comprometimento do aprendiz de professor.
O comportamento pelo qual ajuda a tia no atendimento aos clientes, me chamou a atenção, e começou aí uma emocionante história que escolhi para o dia de hoje em homenagem a todos os professores que sonham e teimam que esse mundo tem jeito.
A escola de Emanuel, é chamada assim até a escolha definitiva do nome, foi uma conquista. Uma casa de herança do avô paterno que ele conta com emoção quando sua família queria repartir ou vender, mas com seu apelo por fazer do espaço uma escola para mudar a vida dos primos e dos amigos em volta, sensibilizou os herdeiros.
A curiosidade falou alto e marquei de ver de perto essa casa e o que realmente acontecia por lá para manter o brilho naqueles olhos verdes, quando falava que era professor.
No horário marcado cheguei por lá, nada difícil, a poucos metros do chalé que estava hospedada. A acolhida foi emocionante. Fui recepcionada pela turma de cinco crianças, que já me esperavam para a visita. Percorri os vãos pequenos que precisam de uma melhoria, sem banheiro, sem conforto, sem energia, mas, ao entrar na sala de aula fui surpreendida. Improvisada, com quatro cadeiras bem desgastadas, o espaço conta com o som da campa que vem de um aparelho de micro-ondas quebrado. A estrutura de barro e tijolos de um do forno antigo à lenha abriga livros e brinquedos. A porta do armário quebrada virou uma lousa, mesmo o lápis teimando por não riscar, as cadeiras sem o amparo dos braços, não tiram o interesse de nenhum deles a reconhecer que ali eles podem sonhar em ter uma profissão.
Percebi os detalhes da organização das crianças em separar os ambientes. O material doado pela vizinhança é levado para a sala da bagunça. ‘De lá, só sai, depois de limpo e melhorado’, diz Maria José, super orgulhosa. Os encontros não acontecem só para fazer as tarefas do colégio, mas também para colorir, limpar o terreno, brincar e ler, além de Emanuel estimular à pesquisa nos exemplares dos didáticos já adquiridos através de doações. ‘Ainda são festejados os aniversários e também o são joão’, diz a diretora da escola Maria Gabriela da Silva de 14 anos, escolhida, pela idade, para gerenciar o espaço.
‘Não riscar, não gritar e não mentir’ fazem parte das regras gerais da boa convivência, diz Emanuel com uma moral para qualquer um ter inveja. E, exibindo alguns livros doados pelas professoras da Escola Municipal de Monte das Gameleiras, ele me apresenta os alunos: Lucas Gabriel, 9 anos; Maria Eduarda Estevam, 7 anos; Maria Carolina Estevam, 9 anos; Maria José Queiroz, 11 anos; e Maria Gabriela de 14 anos. “Ainda tem mais dois primos para participar, o convite já foi feito, estamos aguardando”, conta Emanuel.
E assim, no vale onde o vento sopra um vento frio e forte, vindo de Araruna-PB, entre os animais, vegetação rasteira e cheia de pedras gigantes, duas vezes por semana, é possível ver essa meninada reunida, brincando de ler e de aprender, que me fez sorrir e chorar diante de uma vida tão simples e com o emanuelturmajaneladesejo de voltar lá para levar os gibis e lápis prometidos.

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